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China:
o salto do
gigante

Faz muito tempo que fui à China pela primeira vez.  Início dos anos 1980, ainda durante o governo de João Figueiredo. O gigante asiático estava sob o comando de Deng Xiaoping e em cenário de absoluto subdesenvolvimento. Era um enorme contraste, mesmo em relação ao nosso país, que estava – e ainda está – longe de ser uma nação desenvolvida.

O principal meio de transporte era a bicicleta. Eram tantas, que pareciam nuvens. Elas tomavam as cidades. Não havia tantos carros, apesar das avenidas tão largas. As pessoas vestiam uniformes. Era um povo que parecia padronizado.

O governo de Deng Xiaoping estava apenas iniciando a abertura econômica. Porém, ele foi uma figura fundamental na grande virada desse gigante. Poucos dias após a morte do líder chinês, em fevereiro de 1997, a Folha de S.Paulo publicou um artigo de Roberto Campos muito oportuno – até hoje. Ele fez uma importante análise do que estava acontecendo na China em comparação com a antiga União Soviética: “A China de Deng e a Rússia de (Michail) Gorbatchev seguiram rotas diferentes. Gorbatchev proclamou simultaneamente a liberalização política (`Glasnost’) e a liberalização econômica (‘Perestroika’)”.

Segundo o nosso grande intelectual liberal, o líder chinês resolveu comer pelas beiradas. “Deng substituiu a liberalização política pela descentralização administrativa (…). Liberalizou os mercados agrícolas e satisfez em parte o instinto de propriedade pelo artifício de contratos fundiários de longo prazo. Estendeu a liberalização, experimentalmente, ao comércio e indústria das regiões costeiras, admitindo preços flexíveis e um grau de desinibição empresarial quase capitalista.” Na prática, foram criadas duas Chinas. A costeira passou a apresentar altas taxas de crescimento e segue os moldes do capitalismo. A outra é interiorana, que seguiu as rotinas socialistas e gigantes estatais.

É impressionante quanto o tom profético de Campos estava correto. Não estou falando apenas da URSS. Na verdade, eu me refiro inclusive ao Brasil pós-regime militar. Fizemos a Glasnost antes da Perestroika. Aliás, a liberação econômica nem foi bem feita ainda. E agora fica muito mais difícil. Em outros lugares que viveram a mesma transição e começaram pela abertura econômica, as nações prosperaram e se tornaram verdadeiras democracias econômicas.

A China é uma ditadura – não podemos negar isso. A democracia é um valor fundamental para nós. No entanto, ela se tornou uma das mais abertas democracias econômicas. O ambiente de negócios é muito mais estimulante ao empreendedorismo que o Brasil. Isso faz muita diferença. O Brasil é o inverso. Somos uma democracia política há algum tempo e um dos países mais hostis ao empreendedorismo. É só ver as listas dos rankings Doing Business e Heritage Foundation. No primeiro, a China ocupa a 46a posição (de volta ao domínio chinês há 22 anos, Hong Kong está em 4o), enquanto o Brasil é o 109o. Já na outra lista, a China está em 100o lugar (Hong Kong é a líder do ranking), em contraste com o nosso país, na posição 150.

Dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento apontam a dimensão desse salto chinês. Em um período de 40 anos (1978-2018) a economia chinesa saiu de um PIB de US$ 150 bilhões para chegar a US$ 12,2 trilhões. No mesmo período, segundo o Banco Mundial, o Brasil saiu de US$ 200 bilhões para US$ 1,8 trilhão. Hoje, o PIB per capita chinês é de US$ 9.746 e o brasileiro não passa de US$ 8.400. E é importante lembrar que a população da China é praticamente seis vezes maior.

Esses saltos de crescimento são bastante perceptíveis. Eu vi isso. Cheguei a visitar fornecedores em uma cidade próxima de Hong Kong há muitos anos. O lugar era praticamente uma vila de pescadores. Havia pequenas oficinas de confecção. Íamos lá com uma mochila com água mineral e barrinhas de proteína – como se fosse uma aventura. Estive no mesmo lugar há cinco anos. Preparei o mesmo ritual e percebi que foi totalmente desnecessário. Porque aquela vila virou uma cidade grande. O fornecedor estava instalado no alto de um edifício inteligente. Foi um contraste brutal.

A China é um polo de inovação, especialmente em pagamentos eletrônicos e inteligência artificial. Cada um desses temas, aliás, merece um artigo à parte – fique ligado. No entanto, é importante frisar o quanto esse gigante nos deixou para trás. Somos outro gigante, claro. Porém, estamos aqui atolados com as nossas rodas girando no vazio. Uma verdadeira potência econômica deve incentivar os seus cidadãos a empreendedor e a inovar. Eles são o motor de uma nação. A China entendeu isso muito bem.

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