Artigos

O uber
tributário

A Reforma Tributária é mais um degrau que o Brasil precisa subir em direção ao desenvolvimento, à liberdade econômica e à justiça social. Felizmente, o país acordou para as reformas. Não há mais tempo de olhar para o retrovisor.

Vou dar um exemplo concreto. Lá da minha terra, o Rio Grande do Norte. Neste momento, uma caminhonete de rapadura está saindo de um engenho de Santana do Seridó em direção à feira livre de Caicó. Essa rapadura representa a transferência de mercadoria. É o produto físico. Vou chamá-lo de átomo. Em paralelo, existem trocas de valores, transações e transferência eletrônica. É o débito e o crédito. A isto vou chamar de byte.

No mundo fiscal, temos essas duas realidades. A física e a digital. O átomo e o byte. A proposta de reforma tributária que está baseada num tipo de IVA (Imposto sobre Valor Agregado) acaba limitando a incidência tributária sobre os deslocamentos físicos de mercado. É uma taxação que incide sobre o átomo.

A grande diferença entre elas é que a transferência de mercadoria necessita de um ato declaratório. É preciso que se contabilize o imposto. O imposto sobre transação, por sua vez, está baseado no byte. Os computadores de 200 bancos brasileiros podem mapear toda atividade econômica do Brasil. E, assim, todos os movimentos financeiros.

Nesse ponto, a base do IVA é muito limitada. Está restrita a R$ 3 trilhões, dos quais o governo consegue cobrar de R$ 2 trilhões – a base do ICMS. Isso obriga a alíquotas muito altas. Por outro lado, o imposto sobre movimentações financeiras teria uma base mais de 30 vezes maior. Isto porque estou levando em consideração apenas as transações mercantis, DOCs e TEDs. Mas esse é um universo ainda limitado. Todas as movimentações financeiras precisam estar nesse cálculo. Segundo o BIS, o banco central dos bancos centrais, o Brasil tem movimentações que giram em torno a 180 vezes o seu PIB/ano. Portanto, uma alíquota de 0,1% pode suprir todas as necessidades de União, estados, municípios e Previdência.

Numa definição rápida, a ideia é tributar o pagamento da rapadura (o débito e o crédito). Não a rapadura em si. Ainda que válida, a proposta de criação do IVA tem como mérito (limitado) a unificar esses cinco serviços em um único imposto para bens e serviços: PIS, Confins e IPI (federais), ICMS (estadual) e ISS (municipal). Essa proposta poderia ser considerada aceitável nos anos 1980. Naquela época, tudo era linear e físico. Quem está com a barriga encostada no balcão nos dias de hoje sabe que o mundo mudou – e muito.

O IVA é completamente anacrônico. É como se você pedisse um carro no Uber, Cabify e 99. Daí, quando o veículo chega, lá está um Fusca ou Opala ano 1985. O motorista daquele carro está completamente desatualizado, com todo respeito aos fãs desses modelos icônicos. E o consumidor não se sente bem atendido.

Por isso, defendo esse processo de uberização da nossa vida tributária. Não podemos mais viver em uma sociedade do século 21 com tributação cartorial e burocrática. Estamos na era do dinheiro eletrônico – não mais de plástico ou de papel. Esqueçam o nome CPMF ou imposto do cheque. Estamos no momento do e-tax.

É possível comparar o e-tax com o patinete elétrico, bike compartilhada, bilhete único ou aplicativo de transporte. Ele é rápido, ágil e digital. Rastreia as movimentações financeiras de forma automática. Nada de formulário, planilha. É o banco que manda a informação. As alíquotas serão pequenas e reduzirão o peso da carruagem estatal sobre a economia real.

O e-tax atende o mundo de Uber, Amazon e Netflix. Quem movimenta mais, paga mais. Ao contrário do que já vi em mídias sociais, não busco vantagens para o meu grupo empresarial, porque temos toda a cadeia produtiva dentro dele. É vantajoso para todos, especialmente para o consumidor. É ele quem vai pagar menos.

O e-tax é a tributação dos anos 2020. Deve ser a verdadeira vitória do contribuinte.

«   Voltar

Artigos

Índia:
um novo
caminho

Agora é a vez de falarmos da Índia. A exemplo da China, este gigante asiático é superpopuloso e tem crescimento econômico vigoroso. Acreditem, eles têm muito a nos ensinar em termos de inovação e liberdade econômica.

No ranking do Fundo Monetário Internacional, a Índia tem o 7º maior PIB do mundo e está muito próxima à França e ao Reino Unido (seu antigo colonizador). Nessa lista, o Brasil está em 9º, com uma economia 40% menor que a indiana. Estamos falando de um país de mais 1,3 bilhão de habitantes e com 369 milhões pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza – isso significa um Brasil e meio.

Porém, é importante fazer outra leitura importante. Há 14 anos, o número de miseráveis era de 640 milhões. Isto é, pelo menos 271 milhões deixaram o patamar extremo. Nesse mesmo período, a eletrificação saltou de 70% para 93%. Em relação ao saneamento básico, os percentuais são até difíceis de acreditar. O país tinha 40% das pessoas com acesso a banheiro doméstico. Em julho de 2019, o Ministério da Água do Saneamento garante que esse percentual subiu para 99,45%. Ainda que esses dados possam ser maquiados – como retratou a Folha de S.Paulo –, o contraste é flagrante.

A economia indiana consegue apresentar boa diversificação. Vai da agricultura tradicional e artesanato até agronegócio moderno e amplo parque industrial. O país soube usar a seu favor o fato de o inglês ser uma de suas línguas oficiais (o hindi é a outra). A Índia se tornou uma referência em serviços de tecnologia, software e terceirização.

De acordo com a Heritage Foundation, o país asiático é 129º colocado do seu ranking de liberdade econômica. Não está entre os primeiros, mas ainda assim está mais de 20 posições acima do Brasil. “As medidas de liberalização econômica que começaram no início da década de 1990, incluindo a desregulamentação industrial, a privatização de empresas estatais e a redução dos controles sobre comércio exterior e investimento, aceleraram o crescimento. Corrupção, infraestrutura subdesenvolvida, ambiente regulatório restritivo e oneroso e falta de gestão financeira e orçamentária continuam minando o desenvolvimento geral”, apontou o relatório da instituição.

No ranking do Doing Business, do Banco Mundial, a Índia é a 77ª colocada, contra 109º do Brasil. O relatório afirma: “A Índia também se concentrou em simplificar os processos de negócios. O país implementou várias iniciativas que melhoraram a eficiência dos serviços comércio exterior”. Nessa avaliação, é importante destacar também o caminho da Índia em direção a simplificar processos e a melhorar o fluxo de documentos eletrônicos.

Essa rota da digitalização está fazendo toda a diferença. Eles querem se transformar em uma nação paperless, cashless e presenceless. É possível, inclusive, assinar contratos sem estar presente. Usa-se a biometria. A tendência é que os documentos sejam todos digitalizados. O uso moeda em papel caiu drasticamente. Ao mesmo tempo, as transações online se disseminaram, especialmente graças ao incremento de bancos digitais e ecommerce. Toda uma geração de nativos digitais vem sendo beneficiada por esse novo ambiente financeiro.

Um país sem papel é um lugar com menos burocracia. É o próprio governo que incentiva o uso de processos digitais para agências, empresas e demais organizações. Isso se refletiu em um número significativo. Nada menos que 300 milhões de contas bancárias foram abertas em dez anos. Isso tem muito a ver também com o novo cartão Aadhaar (um cartão de identificação nacional criado em 2009).

Não bastasse toda essa vocação digital, e economia indiana cresce de forma robusta desde os anos 1990. Os índices variam entre 6% e 8%. Aqui, a metade disso já é (seria) motivo de festa. Ainda que a pobreza seja muito chocante na Índia, é preciso destacar a forma como eles estão atacando a miséria por meio da geração de riqueza. E estamos falando de um país com uma população quase sete vezes maior que a do Brasil e com menos da metade do nosso território. Eles encararam grandes mazelas e estão colocando seu país no rumo.

E nós? Quando vamos acordar?

«   Voltar

Artigos

Nossa
casa

As análises de conjuntura econômica são importantes. O mesmo vale para exemplos de inovação mundo afora. Quero utilizar, no entanto, este espaço para exaltar boas práticas corporativos na minha casa, a Riachuelo. Vou utilizar como base a apresentação Mauro Mariz, do Diretor Executivo de Gente e Gestão da Riachuelo, no evento RH 2030 do Experience Club.

Estamos falando da Liderança Consciente. É o nosso método de administração do capital humano. Não é brincadeira manter 40 mil colaboradores olhando para o mesmo objetivo. Isto vale para as lojas (de rua e de shopping), a logística, a financeira e as oficinas de costura. Todos com o mesmo propósito: promover a inclusão por meio da moda.

Em resumo, aqui estão quatro pontos fundamentais do que acreditamos ser a Liderança Consciente: 1 – Simplicidade Inerente (ualquer sistema complexo será governado sempre por poucas regras); 2 – Dilemas (Qualquer dilema pode ser resolvido se desafiarmos suas premissas básicas através do processo de pensamento científico); 3 – Harmonia (Culpar o outro não traz soluções efetivas; as pessoas são sempre boas, por isso é sempre possível encontrar uma solução ganha/ganha) e 4 – Potencial Inerente (Não acredite que você já sabe tudo, qualquer situação pode ser melhorada substancialmente).

Esses pilares são fruto de estudos do físico israelense Eliyahu M. Goldratt. Encontramos as suas ideias na Teoria das Restrições (TOC, do inglês Theory of Constraints). Esses conceitos são fundamentais na gestão de conflitos no mundo corporativo. Dois livros abordam o tema: “A Meta” (1984) e “A Escolha (2014)”. Aliás, é importante lembrar que destaquei Goldratt como um dos pensadores (e figuras) mais influentes na minha formação. Confira aqui: http://www.flaviorocha.com.br/5-fontes-de-inspiracao/

Os novos tempos exigem menos hierarquia, mais empatia. Menos burocracia e melhores processos. Essa adaptação aos movimentos dos tempos não teme a tecnologia. Convive com ela e faz dela uma aliada. Por isso, sem falsa modéstia, podemos dizer que nossa casa está em ordem. Faça o mesmo na sua.

#Liderança #LiderançaConsciente #Riachuelo #Gestão #Administração #Pessoal #TeoriadasRestrições #Goldratt

«   Voltar

Artigos

O tempo do
IVA já passou

A prioridade indiscutível da reforma da Previdência tem desviado a atenção de outra igualmente relevante: a tributária. Fora dos holofotes da imprensa, os debates no Congresso sobre as mudanças necessárias em nosso sistema de arrecadação de impostos ignoram a realidade da economia contemporânea.

O diagnóstico de que é preciso eliminar impostos injustos e ineficientes, responsáveis por minar a competitividade das empresas, está correto. A questão é identificar a melhor receita para enfrentar o problema.

A proposta que está na mesa mira algo equivalente ao IVA, um imposto sobre o valor agregado das transações. Este teria sido um bom imposto para o Brasil dos nossos avós. Ele pressupõe uma economia linear, típica de meados de século passado, que está desaparecendo.

O mundo e o Brasil mudaram. Hoje, a oferta e a demanda refletem uma miríade de microtransações fragmentadas, muitas das quais estão além do alcance de um imposto como o IVA. Com uma economia cada vez mais uberizada, não faz sentido se cogitar uma tributação dos tempos das charretes.

O custo da evidente obsolescência de um imposto sobre valor agregado seria elevado. Ele manteria a carga fiscal concentrada nos setores formais da economia, quando as transações se multiplicam nos ambientes eletrônicos, onde informalidade não é incomum.

É por isso que, em linha com os trabalhos acadêmicos de Marcos Cintra, lanço aqui a ideia de um e-tax —um imposto com uma alíquota baixíssima que, no entanto, poderia aumentar a arrecadação ao incidir sobre uma base universal.

Não é o momento, ainda, de definir a alíquota ideal. Como ordem de grandeza, se fosse de até 0,3%, por exemplo, o e-tax substituiria com vantagens os impostos mais burocráticos e sonegados, como ICMS. Uma alíquota de cerca de 2,5% seria suficiente para substituir todos os impostos.

O e-tax é um jogo de ganha-ganha. Ganham os contribuintes, porque pagam menos. Ganha o governo, pois arrecada mais. Ganha o mercado, ao se livrar da concorrência iníqua que pune os pagadores de impostos. Ganha o país, com a melhora substancial do ambiente de negócios.

O Brasil já ultrapassou o ponto crítico de saturação acima do qual qualquer elevação de alíquota de impostos implicará apenas mais sonegação. A carga fiscal a que estão submetidos aqueles que produzem dentro dos parâmetros da formalidade é desencorajadora do empreendedorismo.

Na prática, o peso dos impostos é ainda maior do que indicam os dados oficiais. Se essa carga fosse equivalente a cerca de um terço do PIB, como estima o Tesouro, já seria excessiva. Mas a realidade é que ela é ainda maior para os que operam dentro da legalidade. Se apenas esses contribuintes fossem levados em conta, a proporção subiria para algo em torno de 37%.

Não espanta, portanto, que haja no Brasil um oceano de clandestinidade. A sonegação ultrapassa os R$ 400 bilhões por ano —quase a metade do que se pretende economizar em dez anos com a reforma da Previdência.

Pois toda essa economia submersa viria à tona com um imposto automático e não declaratório como o e-tax, que incidiria sobre todas as transações. A tecnologia está disponível —basta querer usá-la. A cobrança seria feita a partir do fluxo de caixa eletrônico no sistema bancário, substituindo a pesada estrutura de arrecadação.

O nosso sistema tributário é socialmente injusto e concentrador de renda. Cobra mais, via impostos indiretos embutidos em produtos de consumo, de quem ganha menos.

O e-tax corrigia essa regressividade. O imposto proposto seria neutro da perspectiva de distribuição de riqueza. Quanto à progressividade, deveria se concentrar na outra ponta do sistema tributário —o dos gastos viabilizados pela arrecadação.

O tempo do IVA passou. O mundo moderno exige um e-tax. O Brasil está entre uma reforma anacrônica e uma revolução tributária de verdade. Cabe ao Congresso entregar o que a sociedade precisa e merece.

*Artigo publicado na Folha de São Paulo em 11/07/2019

«   Voltar

Artigos

China:
o salto do
gigante

Faz muito tempo que fui à China pela primeira vez.  Início dos anos 1980, ainda durante o governo de João Figueiredo. O gigante asiático estava sob o comando de Deng Xiaoping e em cenário de absoluto subdesenvolvimento. Era um enorme contraste, mesmo em relação ao nosso país, que estava – e ainda está – longe de ser uma nação desenvolvida.

O principal meio de transporte era a bicicleta. Eram tantas, que pareciam nuvens. Elas tomavam as cidades. Não havia tantos carros, apesar das avenidas tão largas. As pessoas vestiam uniformes. Era um povo que parecia padronizado.

O governo de Deng Xiaoping estava apenas iniciando a abertura econômica. Porém, ele foi uma figura fundamental na grande virada desse gigante. Poucos dias após a morte do líder chinês, em fevereiro de 1997, a Folha de S.Paulo publicou um artigo de Roberto Campos muito oportuno – até hoje. Ele fez uma importante análise do que estava acontecendo na China em comparação com a antiga União Soviética: “A China de Deng e a Rússia de (Michail) Gorbatchev seguiram rotas diferentes. Gorbatchev proclamou simultaneamente a liberalização política (`Glasnost’) e a liberalização econômica (‘Perestroika’)”.

Segundo o nosso grande intelectual liberal, o líder chinês resolveu comer pelas beiradas. “Deng substituiu a liberalização política pela descentralização administrativa (…). Liberalizou os mercados agrícolas e satisfez em parte o instinto de propriedade pelo artifício de contratos fundiários de longo prazo. Estendeu a liberalização, experimentalmente, ao comércio e indústria das regiões costeiras, admitindo preços flexíveis e um grau de desinibição empresarial quase capitalista.” Na prática, foram criadas duas Chinas. A costeira passou a apresentar altas taxas de crescimento e segue os moldes do capitalismo. A outra é interiorana, que seguiu as rotinas socialistas e gigantes estatais.

É impressionante quanto o tom profético de Campos estava correto. Não estou falando apenas da URSS. Na verdade, eu me refiro inclusive ao Brasil pós-regime militar. Fizemos a Glasnost antes da Perestroika. Aliás, a liberação econômica nem foi bem feita ainda. E agora fica muito mais difícil. Em outros lugares que viveram a mesma transição e começaram pela abertura econômica, as nações prosperaram e se tornaram verdadeiras democracias econômicas.

A China é uma ditadura – não podemos negar isso. A democracia é um valor fundamental para nós. No entanto, ela se tornou uma das mais abertas democracias econômicas. O ambiente de negócios é muito mais estimulante ao empreendedorismo que o Brasil. Isso faz muita diferença. O Brasil é o inverso. Somos uma democracia política há algum tempo e um dos países mais hostis ao empreendedorismo. É só ver as listas dos rankings Doing Business e Heritage Foundation. No primeiro, a China ocupa a 46a posição (de volta ao domínio chinês há 22 anos, Hong Kong está em 4o), enquanto o Brasil é o 109o. Já na outra lista, a China está em 100o lugar (Hong Kong é a líder do ranking), em contraste com o nosso país, na posição 150.

Dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento apontam a dimensão desse salto chinês. Em um período de 40 anos (1978-2018) a economia chinesa saiu de um PIB de US$ 150 bilhões para chegar a US$ 12,2 trilhões. No mesmo período, segundo o Banco Mundial, o Brasil saiu de US$ 200 bilhões para US$ 1,8 trilhão. Hoje, o PIB per capita chinês é de US$ 9.746 e o brasileiro não passa de US$ 8.400. E é importante lembrar que a população da China é praticamente seis vezes maior.

Esses saltos de crescimento são bastante perceptíveis. Eu vi isso. Cheguei a visitar fornecedores em uma cidade próxima de Hong Kong há muitos anos. O lugar era praticamente uma vila de pescadores. Havia pequenas oficinas de confecção. Íamos lá com uma mochila com água mineral e barrinhas de proteína – como se fosse uma aventura. Estive no mesmo lugar há cinco anos. Preparei o mesmo ritual e percebi que foi totalmente desnecessário. Porque aquela vila virou uma cidade grande. O fornecedor estava instalado no alto de um edifício inteligente. Foi um contraste brutal.

A China é um polo de inovação, especialmente em pagamentos eletrônicos e inteligência artificial. Cada um desses temas, aliás, merece um artigo à parte – fique ligado. No entanto, é importante frisar o quanto esse gigante nos deixou para trás. Somos outro gigante, claro. Porém, estamos aqui atolados com as nossas rodas girando no vazio. Uma verdadeira potência econômica deve incentivar os seus cidadãos a empreendedor e a inovar. Eles são o motor de uma nação. A China entendeu isso muito bem.

«   Voltar

Artigos

O capitalismo
consciente

Mais do que um livro, o “Capitalismo Consciente” é um movimento. O subtítulo da obra de John Mackey e Raj Sisodia fala por si: “Como libertar o espírito heroico dos negócios”. Esse heroísmo passa longe de discursos demagógicos e ações temerárias nas empresas. Ao contrário, estamos falando de um movimento que não demoniza o lucro, mas o coloca como parte de um propósito. Não como único objetivo. “Acreditamos que as empresas devem liderar o caminho para elevar a consciência do mundo”, escreveram John Mackey e Raj Sisodia no seu livro editado no Brasil pela Editora HSM.

É importante destacar uma fala do empresário Thomas Eckschmidt, ex-diretor geral do Instituto do Capitalismo Consciente Brasil, entidade sem fins lucrativos que apresenta as ideias de Mackey e Sisodia. Em palestra do TEDx, em 2014, o empreendedor disse: “Conseguimos quebrar esse paradigma tradicional do capitalismo: alguém vence e alguém perde. Mudamos isso ao trazer a cadeia produtiva em cima do mesmo propósito”. Segundo ele, esse novo modelo permite entender onde existe a perda. “Defendemos a nossa crença: o caminho do resultado passa por todos.”

Eckschmidt lembra ainda o papel do investidor. É aquele personagem que coloca dinheiro primeiro e vai tirar depois – no final do processo. “Eles fazem muita pressão para sair dinheiro do negócio. Porém, os stakeholders perceberam que a força da cadeia está no seu elo mais fraco. Se quebrar, todos perdem.” Por isso, o livro – e o movimento – está embasado em quatro pilares: integração de stakeholders, propósito, cultura de gestão e liderança consciente.

A obra diferencia, aliás, os tipos de líderes: militar, mercenário e o missionário. Certamente, eu me identifico mais com o missionário. A função de um líder não é ser apenas o guardião da última linha. É ser o guardião do propósito. É o caso da Riachuelo. Temos o propósito de incluir por meio da moda. Nesse ponto, posso dizer que incluo também o objetivo maior.  A liderança corporativa deve evidenciar os rumos da empresa. Convencer os seus liderados do porquê da existência da empresa. Nessa visão holística da companhia, conseguimos também criar uma imagem sólida. Imagem esta que os cliente acreditam e “compram”. Assim, fechamos a cadeia em que todos ganham.

«   Voltar

Artigos

Reed Hastings,
o mago
da Netflix

Você sabe quem é Reed Hastings? Não? Fique tranquilo, você não é o único.

Provavelmente, ele andaria na calçada da avenida Paulista sem ser reconhecido. E isso se repetiria na maioria das cidades do mundo. Porém, esse americano de 58 anos mudou a forma como acessamos e consumimos o nosso entretenimento. É ele a mente por trás da Netflix

No portfólio dessa gigante do streaming, estão sucessos de audiência (se é que ainda podemos usar esse termo) e repercussão. Boa parte dos seus amigos e contatos deve ter comentado com você a genialidade do plano de “Casa de Papel”, a violência de “Narcos”, o xadrez político de “House of Cards” e a reconstrução histórica de “The Crown”. Claro, tem aquele seu amigo que chamou “O Mecanismo” de fake news e você gastou horas discutindo – ainda não consegui assistir a 2º temporada.

Não podemos deixar de fora os filmes produzidos pela própria Netflix, que agora subiram de patamar. “Roma”, por exemplo, foi indicado a 10 categorias do Oscar e venceu três (Melhor Diretor, Filme Estrangeiro e Fotografia).

A Netflix fechou 2018 com 139 milhões de assinantes em 200 países. No Brasil, esse número chegou a 8 milhões. O catálogo tem mais de 1.500 séries de TV e 4 mil de cinema. Pelo menos 1 mil são títulos originais.

Hastings conta uma história saborosa sobre a inspiração que o levou a criar a Netflix. Não se sabe se é verdade ou lenda urbana, mas vale como narrativa. O empreendedor conta que teve a ideia que gerou o sucesso da Netflix quando foi obrigado a pagar uma multa por atrasar a devolução de uma fita VHS do filme “Apollo 13”. Teve de tirar do bolso US$ 40 e nem conseguiu encontrá-la. “É́ uma história divertida. Prende a atenção das pessoas”, contou.

A chave de Hastings vai muito além da sua formação de Stanford. Sempre escutou as pessoas. É necessário, segundo ele, conversar e aprender com elas. Em 1991, fundou sua primeira empresa, a Pure Software. A venda dessa companhia proporcionou o recursos para iniciar o projeto da Netflix, ao lado do amigo Marc Randolph, outro cofundador da futura gigante do streaming. Em outras palavras, ele encontrou um propósito para aquela que viria a ser a sua futura empresa. Ele assumiu o papel do cliente.

A Netflix foi moldada por tentativa e erro. Ele costuma dizer que “gosta de errar” e repete uma célebre frase de Albert Einstein: “Quem nunca cometeu um erro jamais tentou nada de novo”. Na gestão de sua empresa, Hastings procura entender os seus subordinados, não controlá-los. Destaca também o valor do foco e não admite produtos medianos. “É melhor fazer um produto bom do que dois medíocres”, sentencia.

Não se pode falar em streaming sem citar Netflix. Streaming e Netflix são praticamente sinônimos. A empresa de Hastings indicou o caminho. Outros gigantes da novíssima economia, como Amazon e Apple, já têm os seus serviços. Agora é a vez de antigos parceiros da Netflix também buscarem este filão: Warner e Disney. Personagens infantis, super-heróis, franquias cinematográficas bilionárias e séries de TV vão sair do catálogo de Hastings e se tornarão concorrentes.

Este empreendedor não parece tão preocupado. Até porque a originalidade de seu portfólio continua atraindo espectadores. E até abalou Hollywood. Hastings instiga a concorrência. E todos nós temos a ganhar com isso.

«   Voltar

Artigos

Grow, o gigante
da micromobilidade

As bicicletas e patinetes estão tomando as ruas das principais cidades da América Latina.  Para isso, o mercado da micromobilidade ganhou uma gigante, a Grow Mobility Inc., união da brasileira Yellow e da mexicana Grin.  A primeira é a startup líder no compartilhamento de bicicletas sem estação e patinetes elétricos. A segunda é a número 1 da América Latina no segmento de patinetes.

Essa empresa reúne 1,1 mil funcionários, conta com 135 mil bicicletas e patinetes e já realizou 2,7 milhões de viagens. No mapa deles estão 27 cidades em sete países (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru e Uruguai). Um mapa, aliás, que não para de se expandir. Cidades médias brasileiras vão entrar no do radar de atuação da Grow em breve. Além delas, outra startup latino-americana, a Rappi, é uma forte parceira. Os 20 milhões de usuário da Rappi podem desbloquear bicicletas e patinetes. “A Grow manterá e ampliará a operação de bicicletas sem estações e patinetes da Grin e da Yellow, além de expandir para novos países no continente”, afirmou o comunicado de fusão das duas empresas. Jonathan Lewy, cofundador da Grin e presidente do conselho da Grow Mobility Inc., definiu bem a missão da nova companhia: “Estamos empolgados em melhorar os serviços de infraestrutura e impulsionar a atividade econômica em toda a nossa região.”

A possível concorrência dos americanos abriu o olho das duas empresas para uma união. Ganhar musculatura é fundamental para encarar players globais. A 99, que foi criada por Ariel Lambrecht (um dos fundadores da Yellow), está nas mãos dos chineses e cogitava entrar no mercado de patinetes no Brasil. Desistiu, por enquanto. “Temos muita sorte em reunir duas equipes experientes e bem-sucedidas com profundo conhecimento de mobilidade urbana e das necessidades dos clientes que atendemos”, disse Ariel, atual diretor global de produtos da companhia.

A demanda por transporte nos centros urbanos buscou desatar o nó do trânsito. Algumas montadoras, por exemplo, se deram conta que não vendem automóveis, mas mobilidade. É o que o cliente quer. Sempre a visão do cliente tem de estar no centro das discussões. Terreno de atuação da Grow, as soluções de micromobilidade precisam dar fluidez e rapidez aos deslocamentos, sem deixar de lado o preço. Os custos competitivos têm de ser também um incentivo para que o cidadão deixe o carro em casa. “A demanda por esses serviços é enorme e, combinando forças e recursos, poderemos nos mover mais rapidamente para atender mais usuários”, comentou Sergio Romo, cofundador da Grin e CEO Global da Grow.

O desafio da segurança é o próximo obstáculo a ser superado pela gigante latino-americana. Acidentes com patinetes estão tirando o sono da empresa e das prefeituras. É um mundo novo. Assim como o Uber, a Grow está mudando a forma como “consumimos” mobilidade. Estamos trocando as rodas do futuro. E ele está em movimento.

«   Voltar

Artigos

Empregos do
futuro:
A mudança é a
única certeza

O que vou fazer da minha vida agora? Por que o meu emprego vai sumir? As perguntas angustiadas são frequentes. O medo é compreensível, porque as pessoas percebem com mais facilidade as funções que estão sumindo do que as profissões do futuro.

O tema emprego será constante neste espaço. Não poderia ser diferente. É uma das maiores angústias das pessoas. Talvez a maior. Muitas profissões irão sumir. Outras tantas vão surgir, como já mencionei em artigos anteriores.

Não estamos falando apenas de mudanças em profissões com baixa instrução. Carreiras ligadas ao direito e à contabilidade já estão se transformando. Pode ser que demore muito para que um robô substitua o seu advogado e contador. Ou talvez isso nem aconteça. Mesmo assim, uma inteligência artificial pode ajudar muito nessas questões. É o caso de “Ross”, advogado virtual desenvolvido pela Universidade de Toronto.

E não podemos deixar de fora o Watson, projeto IBM que reúne deep learning, inteligência artificial e supercomputadores. A plataforma já é utilizada como assistente de voz, auxílio na área de saúde, reconhecimento visual e um número de atividades difícil de calcular.

Aqui vai outro cenário. Nos EUA, 8% das pessoas estão trabalhando dirigindo algum veículo. Esses empregos estão com os dias contados. São motoristas profissionais de táxi, ambulância, caminhão, por exemplo. E 3% dos trabalhadores são operadores de caixa. Eles também não devem durar muito.

É de dar medo, mas quero propor um exercício. Vamos voltar 100 anos. Metade da população economicamente ativa estava atuando na agricultura. Todo mundo ficaria apavorado se alguém soubesse que a agricultura seria mecanizada e que iria aumentar a atividade brutalmente. Com isso, um percentual muito pequeno das pessoas iria se envolver com o setor. Todos ficariam, literalmente, sem chão.

De volta aos dias de hoje. Quem poderia imaginar que teríamos tantos profissionais ligados ao mercado de pets? Existe muita gente que trabalha com hotéis para cachorros e tantos outros mimos para os animais de estimação.

Nem é preciso usar demais a imaginação. Mais e mais estudos apresentam profissões do futuro. Você pode trabalhar com big data, edge computing, negócios com inteligência artificial e até realidade aumentada, lojas virtuais e drones. Esses universos já são palpáveis.

Existem visões mais sombrias. O historiador Yuval Harari – da trilogia Homo Sapiens, Homo Deus e 21 lições para o século 21 – tem uma visão bem pessimista. Ele fala não apenas de desempregados, mas de “inimpregáveis”. As pessoas não seriam sequer exploradas, mas irrelevantes.

Por outro lado, o escritor Peter Diamandis tem uma visão mais otimista. Ele exalta os novos tempos: “As pessoas não têm ideia do quão rápido o mundo está mudando. A convergência de tecnologias está transformando já nesta década. Temos de surfar no topo desse tsunami e não ser engolido por ele”. O escritor lembra que, para 2023, a previsão é de o crowdfounding movimente US$ 300 bilhões. Isto é, as pessoas que têm uma ideia que ajude a vida dos outros irão cada vez mais atrair o investimento individual e espontâneo.

Não adianta querer parar a história. Ela vai seguir o seu curso. Cada vez mais as ideias serão valorizadas. Cada vez mais novas profissões irão surgir. Não fique velando o seu antigo crachá. É preciso ser empreendedor na sua própria carreira. Porque o futuro já virou presente.

«   Voltar

Artigos

O manual
do século 21

O livro “21 lições para o século 21”, de Yuval Noah Harari, apresenta possibilidades para a nossa sociedade sobreviver aos desafios do presente e até do futuro. O novo livro completa uma trilogia (não necessariamente vai parar aí) com “Homo Sapiens” e “Homo Deus”.

Primeira obra do escritor israelense de 43 anos, “Sapiens” teve mais de 1 milhão de unidades vendidas e tratou da história da humanidade. O seu sucessor, “Homo Deus”, aventurou-se pelo futuro. “No meu primeiro livro, explorei o nosso passado, examinando um macaco insignificante que se tornou dominante no planeta Terra”, contou o autor em um vídeo veiculado no Brasil pela editora Companhia das Letras.”No segundo, explorei o futuro a longo prazo da vida humana, refletindo como podem nos tornar deuses e qual pode ser o destino final da inteligência e da consciência.”

O novo livro se concentra no hoje e no futuro a curto prazo. “Num mundo inundado por informações irrelevantes, clareza é poder. E a censura não funciona bloqueando o fluxo de informações, e sim inundando as pessoas com desinformação e distrações”, continua Harari. Então ele questiona: “O que está realmente acontecendo agora? Quais são os maiores desafios e escolhas dos dias de hoje? Em que deveríamos prestar atenção?”. As respostas são valiosas para cada um de nós. Mas pouca gente pode se dar ao luxo de fazê-las.

As pessoas precisam trabalhar, cuidar de seus idosos e crianças. É preciso alimentá-los, vesti-los. Garantir o sustento. “Infelizmente, a história não perdoa. Se o futuro da humanidade for decidido na sua ausência, você não estará livre das consequências. Isto é muito injusto, mas quem disse que a história é justa?”, sentencia o historiador.

Para o escritor, os desafios da humanidade podem ser resumidos em três: a guerra nuclear, as mudanças climáticas e as tecnologias disruptivas. Nesse contexto, o Harari considera vital para a própria vida na Terra o bom uso da Inteligência Artificial e da biotecnologia.

Vejam este trecho do capítulo sobre Desilusão: “Os computadores já tornaram o sistema financeiro tão complicado que poucos humanos são capazes de entendê‑lo. Com a evolução da IA (inteligência artificial) talvez logo cheguemos a um ponto em que as finanças não farão sentido nenhum para os humanos”.

Como bem define o autor, o livro não vai produzir comida para ninguém. É, na verdade, uma forma de trazer mais gente para o nosso debate. Esta é uma discussão que mais e mais gente tem que participar. Porque o futuro já chegou. E não queremos ser apenas passageiros dele.

#inteligenciaartificial #biotecnologia #história #YuvalNoahHarari #HomoSapiens #HomoDeus #21lições

«   Voltar