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A segunda
onda

Desemprego pode se tornar um tsunami depois de vencermos o coronavírus

O setor de varejo está se mobilizando no Brasil. Isso é fundamental para encararmos essa crise com o senso de urgência que ela necessita. Não me refiro apenas ao combate ao coronavírus. Mas as suas consequências. A essa consequência vou dar o nome de segunda onda. A primeira é a pandemia em si, com o seus contaminados, internados e, infelizmente, mortos.

A economia pode ser a próxima vítima. Ela não será atingida pela Covid-19 diretamente, mas pelas medidas tomadas para contê-lo. Dentro desse contexto, é o no varejo que reside o pior problema. O setor é extremamente pulverizado, além de ter predominância de empresas mais frágeis, sem acesso a crédito. Por isso, podemos considerá-lo o elo de mais difícil reconstrução, quando a tempestade passar.

A indústria pode ser tirada da tomada e religada depois da crise. No varejo, é diferente. É uma relação direta com o cliente. De trás do balcão, observa-se o mercado de uma posição privilegiada. Lá tudo se vê. Se o contato e relação de confiança com o cliente for esgarçada – danificada mesmo -, vai ser difícil consertar. Isto inclui a capilaridade do crédito. Desde a caderneta da padaria ao cartão private label das grandes redes.

Numa cadeia de suprimento moderna, o varejo é a locomotiva. Isto é, a força de tração de toda a economia. É muito importante manter esse setor irrigado, especialmente em relação ao crédito. Essas ações precisam chegar à ponta: pequenos comércios e prestadores de serviço.

A questão tributária é outro ponto fundamental. Ao mantermos essa carga tributária descomunal, o governo estaria retirando quase tudo o que poderia dar de benefício. É como se alguém jogasse dinheiro a partir de um helicóptero e mantivesse uma mega aspirador (na potência máxima) para pegar o mesmo dinheiro de volta.

O pior é que existem até algumas vozes isoladas no Congresso que falam de aumento de carga tributária. Um absurdo. Até porque o principal ataque ao caixa das empresas é de ordem tributária. Isso não acontece apenas no plano federal, com imposto de renda e contribuição social sobre o lucro líquido. Estamos sofrendo também com a insensibilidade dos governadores e prefeitos. ICMS e ISS são os tributos que mais pesam.

É importante diminuir a voracidade desse aspirador de dinheiro. Precisamos manter a irrigação dos pontos-chave da economia. Seria de bom tom alterar alíquotas e até mesmo alongar alguns pagamento. Esse oxigênio seria fundamental especialmente para os pequenos lojistas.

Os governos precisam ter uma visão holística da situação. Enxergar o quadro geral. Estamos muito focados na área da saúde, como era de se esperar. Porém, as vítimas do coronavírus são fruto de uma primeira onda – do vírus em si. A área econômica precisa olhar para a segunda onda. Essa onda inclui desempregados, desalentados e vítimas da violência urbana. Se focarmos apenas em impedir a primeira onda, a segunda pode ser devastadora.

Claro, vida é o bem maior, o dom mais precioso. Não se trata de falar em dinheiro quando há vidas em questão. Não podemos perder, no entanto, a perspectiva social. Até porque fome e  violência também matam.

Como bem lembrou o ministro Paulo Guedes a economia é um organismo vivo. Isso vale principalmente para o setor de serviços. “É importante manter os sinais vitais ativos. Estamos falando de serviços de abastecimentos, luz, comunicação, saúde, ecommerce, delivery, teletrabalho”, alertou Guedes. De acordo com ele, a economia precisa continuar respirando, para não prejudicar a velocidade da volta. “Além do problema de saúde, se tivermos falta de dinheiro e emprego, a crise pode ser muito maior. Uma catástrofe.” Ele disse estar muito atento à questão do excesso de impostos. Mas não podemos ter uma cultura de calote.

De todos os impostos, o mais cruel é aquele que incide sobre a folha de pagamentos. Numa revisão desses impostos, podemos criar empregos em massa. É a única forma de sair dessa crise e conter essa segunda onda.

A hibernação deve ser feita de forma correta. Quando a crise passar, os organismos voltariam a funcionar de forma gradual até atingir a sua potência máxima. Não podemos apagar o país durante esse período de inatividade. O Brasil precisa continuar. Trabalhadores e empresários serão, juntos, o pilar dessa retomada.

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